terça-feira, maio 31, 2011

A “ajuda” da Troika

A força da mistificação da realidade política e social do país, que a toda a hora é debitada pela Comunicação Social dominada pelo sócretismo, não explicará tudo. As débeis alternativas ideológicas da oposição são razão que pode justificar, a acreditar nas sondagens, a relativa elevada percentagem de intenções de votos que Sócrates vem consecutivamente obtendo. Independentemente de quem seja o vencedor das eleições, PS ou PSD, já que não é crível que o Bloco ou a CDU o consiga, o próximo programa de governo está traçado e corresponde ao memorando assinado com a Troika.
Desde a nossa entrada no euro que ficámos acorrentados às políticas neoliberais emanadas da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. O capital financeiro europeu domina a Europa e impôs as suas regras. Aproveitando-se da “crise” pretende impor aos países economicamente mais débeis, de um golpe, todas as medidas políticas neoliberais, anti-económicas e anti-sociais que, com alguma resistência dos cidadãos, vinha paulatinamente implantando, dando assim num ápice, satisfação às suas ambições, à sua desmedida ganância. A sua política resume-se a isto – menos Estado e mais mercado – privatização de todo o património do Estado que possa ser negócio e gerar lucro; extinguir as funções sociais do Estado; retirar ao Estado seu papel regulador. Os mercados, os mercados financeiros que se tornaram dominantes, com estes novos Estados mínimos, passam a controlar e a impor aos próprios países e aos seus governos as suas políticas internas, causando as maiores brutalidades sociais, um retrocesso social e civilizacional. Especulando com as dívidas públicas que fomentaram e alimentaram, saltam de país para país em busca dos maiores rendimentos. Miserabilizando cada país que se submeta aos seus desígnios.
É o que vai acontecer a Portugal. A “ajuda” de 78.000 milhões de euros não é ajuda alguma. Foram os “mercados” financeiros que forçaram Portugal a pedir “ajuda”. Foram os “mercados” que subiram os juros da dívida para valores insuportáveis, são as instituições financeiras que os suportam, que aguardam o resgate dos seus “investimentos” em dívida pública. Até aqui, o país, gastando sempre mais do que criava, emitia dívida em igual proporção. E, para resgatar dívida antiga que ia vencendo, em esquema Ponzi, contraía nova dívida. O esquema ia funcionando alegremente até ao momento em que os “mercados”, elevando os juros, entenderam ter chegado o momento da obtenção de maiores e mais rápidas ganâncias. Da “ajuda”, 30.000 milhões de euros nem sequer chegam a entrar, vão direitinhos para pagamento de juros; 12.000 milhões vão directamente para as instituições financeiras nacionais; alguns outros milhões para saldar compromissos financeiros das empresas públicas; outros tantos para resgatar a dívida pública que vencerá entretanto.
A ameaça de que “não haveria dinheiro para pagar aos funcionários” constitui uma falácia com o objectivo claro de provocar receios generalizados entre os cidadãos e preparar assim terreno para a aceitação dócil das medidas impostas pela Troika. A execução orçamental decorria normalmente, gaba-se até o governo de que na execução orçamental do primeiro trimestre do ano, as receitas ultrapassam as previsões e as despesas reduziram-se mais do que o previsto, o que comprova não ter sentido o cenário de “falta de pagamento aos funcionários”. O que estava realmente em causa, ao contrário, era a ruptura do esquema de Ponzi seguido até aqui, isto é, a emissão de dívida para pagar dívida anterior. A nova emissão de dívida já não encontrava compradores mesmo a juros insuportáveis. Em Junho, Portugal teria que pagar a instituições financeiras internacionais, em pagamentos de dívida antiga, 5.000 milhões de euros. Era esta dívida que estava em risco de ser quebrada, isto é, estava em risco de não ser paga, aquilo que em linguagem corrente se chama a entrada de um país em “bancarrota” que tanta e justificada preocupação causa às instituições financeiras credoras. A “ajuda” tão apressada da Troika visa proporcionar as verbas necessárias ao calendário do pagamento das dívidas às instituições financeiras internacionais. É um dinheiro que não sairá dos cofres das instituições financeiras, sendo apenas sujeito a “operações financeiras de registo de propriedade”. É um dinheiro que não entra em circulação na sociedade (a verba de 12.000 milhões a fornecer à Banca nacional visa igualmente assegurar que esta pague a tempo e horas as dívidas contraídas à Banca internacional), e assim não gerará qualquer riqueza ou progresso económico. Contudo, serão os portugueses que do seu bolso terão que pagar esta nova dívida de 78.000 milhões de euros, com redobrados sacrifícios e uma vida cada vez mais miserável.

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