terça-feira, fevereiro 01, 2011

O dogma neoliberal domina a União Europeia


A liderança da União Europeia (o Conselho Europeu, o Banco Centra Europeu e a Comissão Europeia) reafirmou uma vez mais que penalizará com multas severas os países da Eurozona que não cumpram com os Pactos de Estabilidade. Esta medida reflecte que tal establishment europeu está plenamente submetido à ideologia neoliberal que se tornou num enorme obstáculo à saída da recessão.
Não há dúvida que estas medidas de austeridade do gasto público pioraram a crise, com uma desaceleração do minúsculo crescimento europeu, com um aumento do já elevadíssimo desemprego.
Estas teses de austeridade baseiam-se numa leitura errada das causas da crise do euro. Assumem que a crise do euro se deve ao excessivo esbanjamento do gasto público nos países PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) que, em inglês, significa porcos. Assumem – e o afirmam – se os governos destes países se tivessem comportado e sido tão disciplinados como os países do centro e do norte da Eurozona, hoje não estaríamos na situação em que nos encontramos. O que é extraordinário é que este dogma se reproduza quando é fácil de ver que esta versão dos factos não corresponde à realidade. Cada um destes países, PIGS, tem a despesa pública por habitante mais baixa da Eurozona. O problema destes países não se deve ao inexistente “excessivo gasto público” ou ao "exuberante estado de bem-estar”, pois tanto a despesa pública per capita como a despesa social per capita estão muito abaixo da média da UE-15. O problema que estes países têm não está no gasto do sector público, senão no do sector privado. Em realidade, o maior endividamento destes países não é público, senão privado, e os seus problemas devem-se ao elevadíssimo endividamento privado que se financiou com empréstimos da banca alemã e francesa. E é duvidoso que esta dívida possa pagar-se. E aí reside o cerne da questão.
Vicenç Navarro

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