segunda-feira, dezembro 10, 2012

O modelo neoliberal de sociedade (II)

Porque insistem Passos Coelho e Victor Gaspar, para 2013, na mesma “receita” orçamental que provocou em 2012: - um maior aumento de desemprego; um maior défice público, cerca de 7% do PIB; um aumento da dívida pública, que já vai nos 120% do PIB; uma recessão na ordem dos 3,5% do PIB; o encerramento de milhares de empresas; uma menor receita fiscal apesar de um aumento generalizado de impostos; uma diminuição salarial generalizada; um aumento da pobreza; um aumento dos cortes sociais do Estado.
Para eles, é este o caminho que o país deve seguir, regozijam-se com isso, não se cansando de propagandear que tal objectivo, tal “ajustamento” como lhe chamam, é necessário e indispensável. Sem contudo explicarem a quem ou a quê. À economia, aos mercados, essa nova divindade do credo neoliberal, dirão. Mas que raio de economia é essa que arrasa a economia vigente e miserabiliza o povo. A quem serve uma tal “economia”?
É a política da “terra queimada”, é preciso destruir tudo para que depois algo nasça de novo. É a política de shock relatada por Naomi Klaine. Na verdade, o que se procura, como já tratamos aqui em post anterior, é um novo modelo social, um novo modelo de capitalismo, um novo modelo económico, dominado agora pelo capital financeiro, isto é pelos bancos e pelas grandes empresas. Mas, na posse e no controlo dos bancos e das grandes empresas estão pessoas. Um grupo restrito de cidadãos, talvez não mais de 10% do total da população portuguesa. Uma “nova” classe social constituída pelos grandes accionistas dos bancos e pelos accionistas das grandes empresas, pelos gestores dos bancos e grandes empresas e pelas elites políticas da área do poder.
Aproveitando-se da “crise”, esta “nova” classe social, que germina igualmente por toda a Europa, pretende aniquilar todas as conquistas sociais obtidas nas sociedades do pós-guerra e instaurar um novo modelo social, proletarizando a classe média, extinguindo o pequeno comércio e a pequena empresa. E, revertendo a seu favor todos os ganhos assim obtidos. Um novo modelo que visa retirar todos os direitos e benefícios sociais ainda vigentes. Assistimos à luta de uma classe social, constituída pelos ricos e muito ricos, pelo domínio absoluto sobre a sociedade, domínio necessário à apropriação da riqueza, deixando para a esmagadora maioria da população apenas o indispensável à sua sobrevivência.
A velha luta de classes, até aqui adormecida pelo keysianismo e pelos “estados sociais”, ressurge de novo à luz do dia com redobrada força. É certo que a “crise” mascara este brutal assalto social neoliberal e pela rapidez com que ocorre algumas forças políticas ainda não compreenderam bem as profundas transformações sociais que estamos a viver. Um dos sectores mais importantes da base social de apoio do partido socialista, a pequena empresa e o pequeno comércio, estão a ser aniquilados e proletarizados os seus proprietários. 
O partido socialista, nesta nova realidade, não pode colocar-se ao lado do novo modelo neoliberal de sociedade que, a toda a velocidade e “custe o que custar” está a ser erguido passo a passo, sob pena de alienar toda a sua base social de apoio. Mário Soares já o compreendeu muito bem, enquanto Seguro, sem qualquer visão histórica dos acontecimentos, politicamente imaturo, ideologicamente impreparado, refugia-se num oportunismo táctico completamente deslocado face à gravidade da situação social e económica do país.