Para cumprir calendário, falaram aos portugueses através das TVs, primeiro o presidente do conselho de ministros, antes do embarque para as suas curtas férias na neve na Suíça, depois o presidente desta III República. Sócrates, seguindo a estratégia de há tempos desenhada omitiu os problemas com que se confrontam os cidadãos - o desemprego, o trabalho precário, o encerramento de empresas, a degradação da Justiça e das outras Instituições do Estado, a desorganização, irracionalidade e disfuncionalidade da administração pública (que o PRACE acentuou mais ainda) e também a dívida externa, o défice e o endividamento publico, procurando lançar à oposição o ónus da sua “não governação” deste início de legislatura. Cavaco Silva, parecendo já refeito das desastradas trapalhadas em que se deixou envolver, aproveitou a oportunidade para se afirmar como candidato indiscutível a novo mandato presidencial, enunciando alguns dos problemas nacionais e apelando a consensos partidários de regime, forjando e iniciando deste modo a sua nova estratégia como candidato.
Não se compreende o alarido que os média e os seus politólogos geram sobre o próximo Orçamento de Estado. O PSD, com um líder a prazo e não podendo suportar o ónus da rejeição do Orçamento, não tem condições políticas para se opor à sua aprovação pelo que, com mais ou menos teatralização, o PSD acabará sempre por abster-se na votação e assim permitir a continuidade da governação. E, desta situação, tem consciência o PS, o PSD e o Presidente da Republica pelo que, conhecendo de antemão o seu resultado final, interessante será seguir a encenação dos jogos de poder que até lá se irão desenvolver.
Não será com este orçamento ou com outro orçamento, com este governo ou com outro governo, com este presidente ou com outro presidente, que o País e os portugueses sairão do atoleiro, da desgraça, em que as elites partidárias deste “sistema político”, sobretudo desde há duas décadas, os colocaram. O que está em causa, não é já este ou aquele governo saído do actual espectro partidário, mas o vigente sistema político em si mesmo. Ele foi, ano após ano, meticulosamente arquitectado pela classe política, constituindo hoje um sistema político onde a corrupção se institucionalizou, a comunicação social se instrumentalizou, a Justiça se subjugou ao poder político, a administração pública se partidarizou com o fim último de obter mais e cada vez mais benefícios económicos às oligarquias partidárias que nos têm desgovernado. Desmembraram e tornaram irracional e disfuncional a administração pública, aumentando brutalmente a despesa pública sem ganhos de produtividade para o cidadão, com o único objectivo de canalizarem para seu benefício as verbas assim geradas (como presidentes e vogais de órgãos do estado que foram nascendo como cogumelos ao longo dos últimos anos, Institutos, Comissões, Autoridades, Agências, … Empresas Municipais, …) verbas que não andarão longe dos 10% do PIB actual. Dinheiro que é usurpado aos portugueses.
Ninguém poderá acreditar que uma classe política que engendrou um tal sistema político prescinda da situação privilegiada em que se encontra e que tão bem soube erguer. Pelo contrário, a tendência será sempre para ampliar os seus benefícios, com este orçamento ou com outro orçamento, com este governo ou com outro governo, com este presidente ou com outro presidente. É este o cancro que vai alastrando ano após ano e corrói o corpo da economia nacional. É esta a verdadeira e crónica “crise” da economia portuguesa.