segunda-feira, dezembro 12, 2011

A AGENDA DO DINHEIRO E A DAS RUAS

Na véspera da cúpula de Bruxelas, o BC europeu sinalizou a natureza estrita do que seria a prioridade do encontro encerrado nesta 6ª feira. A instituição dirigida pelo italiano Mario Draghi, não por acaso ex-vice presidente do Goldman Sachs para Europa, tratou de resgatar os bancos e deixou a sociedade nas mãos dos mercados. Draghi cortou juros e ofereceu liquidez ilimitada ao crédito interbancário, o que é importante, mas não resolve impasses estruturais da UE. A começar pelo facto de que o banco central que ele dirige não é um instrumento de soberania da sociedade sobre os mercados, muito ao contrário. Ao aderirem ao euro, os Estados não dispõem mais de uma autoridade monetária capaz de emitir dinheiro e administrar a dívida pública; por lei, o BCE é proibido de comprar títulos oficiais, excepto emprestando dinheiro a bancos para que o façam, com lucro. O mundo não teria vencido a crise de 1929 se essa fosse a regra. Ela subordina o financiamento público (leia-se, investimento estatal, políticas sociais e de emprego e a taxa de juro) à chantagem especulativa dos 'livres mercados'. Essa é uma das causas da crise actual que a cúpula do euro, longe de corrigir, radicalizou. Não por acaso, o encontro, cercado de expectativas, dissipou-se em conflitos e tensão. Não se ouviu em Bruxelas qualquer menção a palavras como crescimento, democracia e trabalho. Faz todo sentido: o lugar para discutir isso, cada vez mais, é a rua.

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terça-feira, dezembro 21, 2010

A religião dos mercados


Quase todos os líderes políticos, quer sejam da esquerda tradicional ou de direita, quer sejam do Sul ou do Norte, dedicam um verdadeiro culto ao mercado, e aos mercados financeiros em especial. Seria necessário dizer que fabricam uma religião do mercado. Em cada dia, é dita uma missa para honrar o Deus-Mercado para cada lar munido de um televisor ou de uma ligação à Internet, no momento em que se dá conta da evolução das cotações na Bolsa e das esperas dos mercados financeiros. O Deus-Mercado envia sinais através do jornalista de economia ou do cronista financeiro.
Não é não somente verdade para todos os países mais industrializados, mas também para a maior parte do planeta. Quer se esteja em Xanghai ou em Dakar, no Rio de Janeiro de Janeiro ou em Tombuctoou, receber-se-ão "os sinais enviados pelos mercados". Por toda a parte, os governantes procederam às privatizações e criaram a ilusão de que a população podia participar directamente nos rituais do mercado (comprando acções) e receber um benefício de retorno na medida em que se interpretassem bem os sinais enviados pelo Deus-Mercado. Realmente, uma pequena parte das camadas mais baixas conseguiu adquirir acções, mas não tem peso algum sobre as tendências do mercado.

Durante séculos, talvez se leia nos livros de História que, a partir de 1980, um culto fetichista fez furor. A subida em flecha do culto em questão será relacionada com dois nomes de chefes de estado: Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
Os Deuses desta religião são os Mercados financeiros. São-lhes dedicados Templos que têm por nome Bolsas. Só os grandes padres e os seus acólitos são os seus convidados. O povo crente é convidado a comunicar com os Deuses-Mercados através do pequeno ecrã da TV, do computador, do jornal diário, da rádio ou da janelinha do banco.
Para amplificar, no espírito dos crentes, a potência dos Deuses-Mercados, comentadores anunciam periodicamente que estes enviaram sinais aos governos para indicar a sua satisfação ou o seu descontentamento. O governo e o Parlamento gregos compreenderam finalmente a mensagem enviada e adoptaram um plano de austeridade de choque que faz pagar as camadas mais baixas. Mas os Deuses estão descontentes com o comportamento da Espanha, Portugal, Irlanda e Itália. Os seus governos deverão também fazer uma oferenda com fortes medidas anti-sociais.

Os governos não são excepção: abandonaram os meios de controlo que detinham sobre estes mercados financeiros. Os investidores institucionais («zinzins»: grandes bancos, fundos de pensões, seguros...) que os dominam receberam dos governos milhares de mil milhões de dólares sob a forma de dons ou empréstimos que servem para os entregar em sela, após a derrota de 2007-2008. O Banco Central Europeu, a Reserva federal dos Estados Unidos, o Banco da Inglaterra emprestam-lhes, em cada dia, a uma taxa inferior à inflação, cestos de capitais que os "zinzins" se apressam a utilizar de maneira especulativa contra o euro, contra as tesourarias dos Estados, sobre o mercado das matérias primas...
Hoje, o dinheiro pode circular de um país para o outro sem a menor cobrança de imposto. Três mil mil milhões de dólares circulam, em cada dia, pelas fronteiras do mundo. Menos de 2% desta soma servem directamente o comércio mundial ou os investimentos produtivos. Mais de 98% servem as operações especulativas principalmente sobre as moedas, sobre os títulos da dívida, sobre as matérias primas.

Eric Toussaint, (doutor em Ciências Políticas, preside o CADTM da Bélgica, Comité para Anulação da Dívida do Terceiro Mundo e é autor de várias obras).

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sexta-feira, maio 14, 2010

desenganem-se


Mais inteligentes que os políticos, parecem ser as agências de rating e os “mercados”.
Considerando, e bem, que as medidas de austeridade impostas pelos países de dívidas públicas e défices elevados, irão penalizar os seus próprios crescimentos económicos e assim agravar a médio e a longo prazo as suas débeis economias, a resposta aí está, com a desvalorização do euro e com o aumento das taxas de juro da dívida pública. Os sinais estão a ser dados hoje nas Bolsas com a queda do euro e os índices a acentuarem as quedas.
Se os nossos governantes pensavam que tinham o problema resolvido, desenganem-se. As medidas de aumento de impostos não agradaram aos mercados. Eles conhecem bem os resultados destas medidas restritivas. A resposta só poderia ser dado com cortes efectivos na despesa corrente do estado, coisa a que os nossos governantes são avessos, por razões óbvias.

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